Ódio de cunhada, de Nelson Rodrigues
Vivia dizendo:— O sujeito que trata bem mulher está desgraçado! Está frito! E dava conselhos aos tímidos:
— Dá-lhe duro! Deixa de ser besta! — e suspirava: — Ah, se fosse comigo! Os outros escutavam, no fundo maravilhados com essa ostentação de selvageria. Uns comentavam, nas suas costas:
— É potoca! Garganta pura!
Mas não era. Bonito, com uma pele fina e rósea, os olhos verdes e intensos, um bigode pequeno e aparadíssimo, um busto de estátua — ele fazia um sucesso, e tremendo, com as mulheres. O telefone, em casa, não parava; recebia bilhetinhos; dizia-se que até senhoras casadas o perseguiam, da maneira mais deslavada e frenética. Ao contar que tratava mal, a pontapés, as suas conquistas, não exagerava. As mulheres passavam o diabo com Orlando. Até apanhavam. Ainda ele, com a sua brutalidade de modos e de palavras, dizia: