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Ódio de cunhada, de Nelson Rodrigues

Vivia dizendo:
— O sujeito que trata bem mulher está desgraçado! Está frito! E dava conselhos aos tímidos:
— Dá-lhe duro! Deixa de ser besta! — e suspirava: — Ah, se fosse comigo! Os outros escutavam, no fundo maravilhados com essa ostentação de selvageria. Uns comentavam, nas suas costas:
— É potoca! Garganta pura!
Mas não era. Bonito, com uma pele fina e rósea, os olhos verdes e intensos, um bigode pequeno e aparadíssimo, um busto de estátua — ele fazia um sucesso, e tremendo, com as mulheres. O telefone, em casa, não parava; recebia bilhetinhos; dizia-se que até senhoras casadas o perseguiam, da maneira mais deslavada e frenética. Ao contar que tratava mal, a pontapés, as suas conquistas, não exagerava. As mulheres passavam o diabo com Orlando. Até apanhavam. Ainda ele, com a sua brutalidade de modos e de palavras, dizia:
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O chantagista, de Nelson Rodrigues

A futura sogra, que era professora e tinha um gênio adorável, dizia sempre:
— O essencial no casamento é a compreensão. E insistia, acima de tudo, num ponto que lhe parecia essencial:
— Nada de discussões! Nada de bate-bocas!
Fernando ouvia tudinho e, mais tarde, com os amigos, dava demonstrações do maior entusiasmo: “Tenho uma sogra que é a minha segunda mãe!” Os amigos ficavam impressionados. Uns, meio céticos, perguntavam: “No duro?” Fernando confirmava, com uma ênfase irresistível:
— Palavra de honra! E quero ser mico de circo se for mentira!
De fato, d. Zuleica exercia, naquele namoro, uma influência das mais estimáveis. Como sua ascendência era grande sobre a filha e sobre o genro (futuro genro), eles não faziam nada sem consultá-la antes. A sós com a filha dizia-lhe: “Certas intimidades, não! E nada de beijo de língua!” Mesmo na sua ausência, Dolores ponderava: