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Sob a carícia de meus dedos, de Fernando Sabino

Quando eu era menino, uma das minhas distrações era ficar batucando na máquina de escrever antiga de meu pai. Daquelas antigas, pesadas, deselegantes, que tinham uma inscrição no dorso negro, em letras douradas: Remington Rand. Hoje são peças de museu. Naquela, sem trocadilho, ensaiei as primeiras letras.
― Você tem de aprender direito ― disse meu pai.
E confiou-me a meu irmão, que me deu um manual de datilografia, passou a corrigir diariamente meus exercícios: linhas inteiras de ASDFG de cima baixo, HJKLÇ para a mão direita. Não me perdoava um erro, para passar ao exercício seguinte, referente às demais letras do teclado. Depois vieram frases engraçadas, como "O rato roeu a roupa do rei", "O titereteiro tateava todo tatibitate" ― coisas assim. Esse duro aprendizado, se não ajudou a aprimorar o estilo, pelo menos fez de mim um razoável datilógrafo.
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O hóspede do 504, de Fernando Sabino

São Paulo era uma cidade da qual se dizia que, feito o que se tem de fazer, deve-se sair no mesmo dia ou, no mais tardar, no dia seguinte.
Sabendo disto, ele, recebido à tarde no aeroporto pela pessoa com quem deveria se entender, seguiu direto ao escritório do outro para tratar de negócios. Jantaram juntos e depois ele, já sozinho, deu ainda um giro pela noite, tomou umas e outras - era tarde quando pegou um táxi, mandou tocar para o Hotel Excelsior.
― Quarto 504 - pediu na portaria.
Cansado, despiu-se e se atirou na cama, disposto a seguir direto para o aeroporto assim que acordasse, não se dando ao trabalho nem de abrir a mala. Quase a dormir, considerou, entretanto, que deveria pelo menos escovar os dentes. Acendeu a luz, e, tonto de sono, olhou ao redor por sua mala, não encontrou.
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Falando sozinho, de Fernando Sabino

Certa ocasião, um professor amigo meu resolveu estudar o comportamento das pessoas que falam sozinhas. Desde então o assunto passou a me interessar.
Freqüentemente me surpreendo falando sozinho. Ainda há pouco fui retirado da preguiça de escrever e posto diante desta máquina por uma ordem peremptória, expressa através de minha própria voz: vai trabalhar, vagabundo! Várias vezes ao dia me vejo, ou me ouço, dizendo coisas para mim mesmo - em geral palavras de advertência a que respondo com pedidos de contemporização ("por favor, assim também não há tatu que agüente"), auto-elogios ("até que eu não sou dos piores"), queixumes e justificações ("ninguém é de ferro", "no fim dá certo", "deixa correr frouxo"). E estabeleço comigo mesmo um diálogo bem distraído - pelo menos na medida em que me distrai das obrigações.

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O aleijado, de Nelson Rodrigues

Era contra o casamento. E não fazia o menor mistério. Confessava, claramente, que tinha uma espécie de tara. Havia, em redor, um espanto.
— Tara?
— Pois não. Tara, sim.
— Mas como?
E ele, com alegre naturalidade:
— Só gosto de mulher casada.
— No duro?
— No duro. Tenho horror das solteiras. Não me interessam.
Este cinismo de salão causava um grande efeito, sobretudo nas mulheres. As solteiras arregalavam os olhos, no fundo deliciadas; e as madames achavam também uma graça infinita nesse descaro. E Sandoval, lisonjeado com o sucesso, insistia:
— Palavra de honra!
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Televisão para dois, de Fernando Sabino

Ao chegar ele via uma luz que se coava por baixo da porta para o corredor às escuras. Era enfiar a chave na fechadura e a luz se apagava. Na sala, punha a mão na televisão, só para se certificar: quente, como desconfiava. Às vezes ainda pressentia movimento na cozinha:
- Etelvina, é você?
A preta aparecia, esfregando os olhos:
- Ouvi o senhor chegar... Quer um cafezinho?
Um dia ele abriu o jogo:-Se você quiser ver televisão quando eu não estou em casa, pode ver à vontade.
-Não precisa não, doutor. Não gosto de televisão.
- E eu muito menos.
Solteirão, morando sozinho, pouco parava em casa. A pobre da cozinheira metida lá no seu quarto o dia inteiro, sozinha também, sem ter muito que fazer...Mas a verdade é que ele curtia o seu futebolzinho aos domingos, o noticiário todas as noites e mesmo um ou outro capítulo da novela, "só para fazer sono", como costumava dizer: