Sob a carícia de meus dedos, de Fernando Sabino
Quando eu era menino, uma das minhas distrações era ficar batucando na máquina de escrever antiga de meu pai. Daquelas antigas, pesadas, deselegantes, que tinham uma inscrição no dorso negro, em letras douradas: Remington Rand. Hoje são peças de museu. Naquela, sem trocadilho, ensaiei as primeiras letras.― Você tem de aprender direito ― disse meu pai.
E confiou-me a meu irmão, que me deu um manual de datilografia, passou a corrigir diariamente meus exercícios: linhas inteiras de ASDFG de cima baixo, HJKLÇ para a mão direita. Não me perdoava um erro, para passar ao exercício seguinte, referente às demais letras do teclado. Depois vieram frases engraçadas, como "O rato roeu a roupa do rei", "O titereteiro tateava todo tatibitate" ― coisas assim. Esse duro aprendizado, se não ajudou a aprimorar o estilo, pelo menos fez de mim um razoável datilógrafo.