O último cigarro, de Fernando Sabino
Ao acabar de escrever hoje, como sempre, vou acender um cigarro. Só que este será o último.Assim eu quereria meu último cigarro...
Sempre que me vejo sem cigarros, ponho-me a parodiar o verso de Manuel Bandeira. Mas desta vez não se trata de poesia, nem do cigarro que fumarei antes de dormir: trata-se do último mesmo, o último dos últimos, o derradeiro, até o final dos tempos, que jamais fumarei nesta minha longa e, embora às vezes atormentada, boa vida, até exalar o último suspiro.
Quando digo que já deixei várias vezes de fumar, provoco sorrisos escarninhos ao redor, como se estivesse repetindo o velho dito espirituoso atribuído a Mark Twain, Bernard Shaw, Churchill, sei lá quem – nada mais fácil, já haviam deixado várias vezes. Modéstia à parte, eis que também o fiz, e daí? Jamais, todavia, com a declarada disposição, como agora, de que seja para sempre.