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O último cigarro, de Fernando Sabino

Ao acabar de escrever hoje, como sempre, vou acender um cigarro. Só que este será o último.
Assim eu quereria meu último cigarro...
Sempre que me vejo sem cigarros, ponho-me a parodiar o verso de Manuel Bandeira. Mas desta vez não se trata de poesia, nem do cigarro que fumarei antes de dormir: trata-se do último mesmo, o último dos últimos, o derradeiro, até o final dos tempos, que jamais fumarei nesta minha longa e, embora às vezes atormentada, boa vida, até exalar o último suspiro.
Quando digo que já deixei várias vezes de fumar, provoco sorrisos escarninhos ao redor, como se estivesse repetindo o velho dito espirituoso atribuído a Mark Twain, Bernard Shaw, Churchill, sei lá quem – nada mais fácil, já haviam deixado várias vezes. Modéstia à parte, eis que também o fiz, e daí? Jamais, todavia, com a declarada disposição, como agora, de que seja para sempre.
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Como se fora um coração postiço, de Rubem Braga

Nasceu, na doce Budapeste, um menino com o coração fora do peito. Porém - diz um dr. Mereje - não foi o primeiro. Em São Paulo, há 7 anos, nasceu também uma criança assim. “Tinha o coração fora do peito, como se fora um coração postiço."

Como se fora um coração postiço... O menino paulista viveu quatro horas. Vamos supor que tenha nascido às cinco horas. Cinco horas! Um meu amigo, por nome Carlos, diria:

“...a hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam...”

Madrugada paulistana. Boceja na rua o último cidadão que passou a noite inteira fazendo esforço para ser boêmio. Há uma esperança de bonde em todos os postes. Os sinais das esquinas - vermelhos, amarelos, verdes - verdes, amarelos, vermelhos - borram o ar de amarelo, de verde, de vermelho. Olhos inquietos da madrugada. Frio. Um homem qualquer, parado por acaso no Viaduto do Chá contempla lá embaixo umas pobres árvores que ninguém nunca jamais contemplou. Humildes pés de manacá, lá embaixo. Pouquinhas flores roxas e brancas. Humildes manacás, em fila, pequenos, tristes, artificiais. As esquinas piscam. O olho vermelho do sinal sonolento tonto na cerração, pede um poema que ninguém faz. Apitos lá longe. Passam homens de cara lavada, pobres com embrulhos de jornais debaixo do braço. Esta velha mulher que vai andando pensa em outras madrugadas. Nasceu, em uma casa distante, em um subúrbio adormecido, um menino com o coração fora do peito. Ainda é noite dentro do quarto fechado, abafado, com a lâmpada acesa, gente suada. Menino do coração fora do peito, você devia vir cá fora receber o beijo da madrugada. Vamos andar pelas praças desertas, onde as estátuas molhadas cabeceiam de sono. Menino do coração fora do peito, os primeiros bondes estrondam. Vamos ouvir de perto esses barulhos da madrugada.